Agricultura Orgânica: Fundamentos para a Nutrição do Solo e dos Alimentos
- Ruth Frade
- 23 de jan.
- 4 min de leitura

Como é que a agricultura biológica melhora a saúde do solo e aumenta a camada superficial do solo (topsoil)?
As técnicas utilizadas pelos agricultores biológicos podem ajudar a travar a degradação da saúde do solo — ou até a restaurar solos anteriormente degradados — porque repõem o carbono orgânico do solo e preservam a biodiversidade subterrânea.
Os agricultores biológicos fortalecem a vida do solo através da adição de composto e outros materiais orgânicos, da diversificação das rotações de culturas, do cultivo de culturas de cobertura, da utilização de leguminosas para fornecer azoto (N) e da integração entre culturas e pecuária.
As culturas de cobertura são plantas cultivadas para beneficiar o solo, e não para gerar rendimento direto. Protegem contra a erosão do solo, a perda de nutrientes e oferecem muitos outros benefícios ao agroecossistema. Nos sistemas biológicos, podem ser usadas para o controlo de infestantes e são frequentemente uma fonte essencial de nutrientes para as culturas principais, através da fixação de azoto e da incorporação como adubo verde.
Os agricultores biológicos dependem de fertilizantes naturais, como composto e estrume, para melhorar o teor de nutrientes do solo. A utilização destes corretivos orgânicos tem demonstrado aumentar o sequestro de carbono no solo, o que pode ajudar a mitigar as alterações climáticas ao reter carbono que, de outra forma, atuaria como gás com efeito de estufa na atmosfera.
As rotações de culturas — a sequência de culturas cultivadas sucessivamente no mesmo terreno — são um componente essencial para manter solos saudáveis. Estas práticas quebram ciclos de pragas e infestantes, ajudam na reciclagem de nutrientes e reduzem os riscos económicos associados à monocultura. As explorações agrícolas biológicas tendem a ter rotações mais longas do que as convencionais, o que conduz a uma maior diversidade agrícola.
Como é que a agricultura biológica aumenta a densidade nutricional dos alimentos?
A agricultura biológica aumenta o potencial de inoculação micorrízica e a diversidade de espécies de fungos micorrízicos arbusculares (AMF).
Os fungos micorrízicos arbusculares são microrganismos benéficos que colonizam quase todos os tipos de plantas. Eles estendem eficazmente o alcance das raízes, ajudando as plantas a absorver água e nutrientes de um volume maior de solo.
A colonização por AMF demonstrou ajudar as culturas a prosperar em condições de seca e em solos com níveis elevados de salinidade.
Culturas fertilizadas com estrume ou composto apresentaram maiores teores de proteína, vitamina C, fósforo, potássio, cálcio e ferro.
Muitos estudos concluíram que as práticas biológicas produzem culturas mais nutritivas.
Além disso, a redução da mobilização do solo (lavoura mínima) por parte dos agricultores mantém ou aumenta os nutrientes do solo.
Assim, podemos concluir que as práticas da agricultura biológica que melhoram a diversidade de bactérias e fungos no solo tornam os alimentos mais densos em nutrientes.
O que acontece ao solo ao longo do tempo na agricultura convencional da “Revolução Verde” e porquê?
A agricultura industrial tem esgotado os solos em todo o mundo e selecionado plantas pelo tamanho e rapidez de crescimento — e não pelo valor nutricional — numa busca restrita por rendimentos cada vez mais elevados.
A erosão do solo e a degradação da fertilidade do solo são preocupações antigas entre agricultores e pensadores da natureza.
A mobilização frequente do solo e a aplicação intensiva de fertilizantes sintéticos à base de azoto influenciam a vida do solo, alterando a abundância e a composição das comunidades de bactérias, fungos e organismos maiores, como as minhocas. Em particular, estas práticas reduzem a matéria orgânica do solo e a diversidade e abundância da vida subterrânea, afetando a ciclagem de nutrientes, a absorção mineral pelas culturas e a produção de fitoquímicos.
A mobilização do solo degrada a matéria orgânica ao estimular picos de atividade microbiana. Reduz também a diversidade de fungos e bactérias e interrompe especialmente as hifas fúngicas semelhantes a raízes, diminuindo o fornecimento de minerais às plantas através das simbioses fúngicas.
O uso de fertilizantes também afeta a vida do solo. Os fertilizantes sintéticos de azoto, por exemplo, são conhecidos por reduzir a abundância e diversidade de fungos micorrízicos.
Houve ainda um aumento significativo do uso de pesticidas, causando elevada poluição da água e danos no solo.
A repetição contínua das mesmas culturas para aumentar a produção e reduzir falhas levou ao esgotamento dos nutrientes do solo. Como não há devolução de resíduos vegetais e matéria orgânica, os sistemas de cultivo intensivo resultaram na perda de matéria orgânica do solo. Para satisfazer as exigências de novas variedades de sementes, os agricultores recorreram a doses crescentes de fertilizantes à medida que a qualidade do solo se degradava (Chhabra, 2020). A aplicação de pesticidas e fertilizantes aumentou os níveis de metais pesados no solo, especialmente cádmio (Cd), chumbo (Pb) e arsénio (As).
Herbicidas e outros produtos químicos para controlo de infestantes também prejudicam o ambiente. O pH do solo aumentou após a Revolução Verde devido à utilização destes produtos alcalinos. A prática da monocultura tem efeitos nocivos em várias propriedades do solo, incluindo a migração de silte da superfície para camadas mais profundas e a redução do teor de carbono orgânico.
Produtos químicos tóxicos no solo destruíram microrganismos benéficos essenciais para manter a fertilidade. Como consequência, houve diminuição da produtividade agrícola. Além disso, o uso intensivo de maquinaria e mecanização alterou as propriedades físico-químicas do solo, afetando a atividade biológica.
Nos métodos tradicionais, o solo consegue recuperar na presença de fatores de stress. No entanto, isso não acontece com estes métodos modernos. Um estudo realizado em Haryana identificou problemas de encharcamento, salinidade, erosão do solo, degradação e aumento do lençol freático associado a água salobra e alcalinidade, comprometendo a produção agrícola e a segurança alimentar futura.





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